Investigamos o shot de brócolis da Nomio
A bebida da Nomio chegou ao endurance prometendo menos lactato e adaptações mais rápidas. A tese nasceu num laboratório sueco e ainda não terminou de ser testada.
O ritual é simples: um shot verde, três horas antes de uma sessão intensa.
A Nomio transformou brotos de brócolis numa fórmula para atletas de endurance e passou a aparecer ao lado de campeões da pista, do ciclismo, do triatlo e da orientação. A promessa central chama atenção: até 12% menos acúmulo de lactato, com melhor resposta ao treinamento e recuperação mais rápida.
O produto parece ter chegado pronto. A ciência por trás dele ainda está em construção.
A principal evidência humana publicada começou com nove pessoas. Depois veio um pré-print com 15, sem teste de performance. Agora, um novo ensaio pretende descobrir se a alteração observada no sangue se transforma em tempo ganho depois de duas horas de exercício.
Essa é a história de como uma hipótese virou shot antes de virar consenso.

O que existe dentro do frasco
Segundo a Nomio, cada shot tem 60 mL. A composição declarada é 80% de extrato de brotos de brócolis, 15% de limão e 5% de açúcar.
O composto de interesse não é uma vitamina específica nem a proteína do vegetal. São os isotiocianatos, moléculas formadas a partir dos glucosinolatos presentes em brócolis, couve, rúcula e outras crucíferas.
O sulforafano é o exemplo mais conhecido. Ele pode ativar NRF2, um regulador que aciona genes ligados às defesas antioxidantes e à resposta celular ao estresse.
A hipótese esportiva segue esta lógica: treinamento intenso aumenta o estresse oxidativo; excesso de estresse pode prejudicar parte da adaptação; isotiocianatos poderiam ajudar o organismo a administrar essa carga.
É um mecanismo plausível. A pergunta é se ele torna alguém mais rápido.
Sete dias que abriram a conversa
Em 2023, pesquisadores da Swedish School of Sport and Health Sciences publicaram o primeiro estudo humano diretamente ligado a essa tese esportiva.
O desenho era cuidadoso. O ensaio foi cruzado, duplo-cego e controlado por placebo. Cada participante passou pelas duas condições. O problema estava no tamanho: eram apenas nove pessoas.
Durante sete dias consecutivos, elas fizeram sessões intervaladas intensas na bicicleta. O programa incluía repetições de quatro ou oito minutos e acrescentava sprints conforme a semana avançava.
Ao mesmo tempo, os participantes ingeriam duas bebidas diárias preparadas com 75 g de brotos ricos em glucosinolatos. Eram 150 g de brotos por dia. Na outra condição, recebiam uma bebida de brotos de alfafa.
Os resultados foram interessantes.
Na condição com glucosinolatos, marcadores de oxidação das proteínas musculares e de estresse inflamatório foram menores. Durante exercício submáximo, o lactato capilar ficou aproximadamente 0,20 mmol/L abaixo e a curva se deslocou em cerca de 15 a 20 watts.
No teste máximo, o tempo até a exaustão passou de 380 para 426 segundos. Com placebo, passou de 401 para 406 segundos. O VO2max não mudou significativamente.
Os brotos pareceram ajudar os participantes a atravessar uma semana excepcionalmente dura. Isso não é o mesmo que demonstrar melhora numa prova.
O teste terminou em exaustão num cicloergômetro. Não houve contrarrelógio, corrida ou competição. Também não foi testado um shot comercial isolado três horas antes do esforço.

De 150 gramas de brotos para um shot de 60 mililitros
A Nomio não vende duas garrafas diárias com 75 g de brotos frescos. Vende uma fórmula concentrada e estabilizada.
Essa diferença importa porque glucosinolatos precisam ser convertidos em isotiocianatos. A enzima mirosinase, a preparação do vegetal, o processamento e a microbiota podem alterar quanto sulforafano realmente fica disponível.
A empresa afirma que conseguiu estabilizar os compostos ativos e que a dose do shot reproduz a faixa considerada ideal pela pesquisa. Essa equivalência pertence, por enquanto, à interpretação da fabricante. O estudo publicado em 2023 não avaliou o produto que chegou ao mercado.
O estudo que se aproxima da promessa de 12%
Em 2025, o mesmo grupo divulgou um novo trabalho como pré-print. Isso significa que o manuscrito foi tornado público antes da revisão formal por outros cientistas.
Quinze participantes consumiram, em dias diferentes, 37,5 g de brotos ricos em glucosinolatos, 75 g ou placebo. O resumo descreve brotos de couve vermelha, não o shot comercial de brócolis.
Três horas depois, eles pedalaram em três cargas submáximas.
Perto do limiar, a dose de 37,5 g produziu lactato 0,4 mmol/L abaixo do placebo. Com 75 g, a diferença foi menor: 0,25 mmol/L. Na carga mais baixa, não houve efeito significativo.
O resultado sugere que mais não é necessariamente melhor. Os autores propuseram uma curva em U para a dose.
Mas o estudo não mediu performance. Ninguém fez um contrarrelógio. Não sabemos se o lactato menor permitiria sustentar mais potência, poupar glicogênio ou terminar antes.
Lactato menor não significa automaticamente fadiga menor
Durante décadas, o lactato foi apresentado como resíduo responsável pela fadiga. Essa leitura ficou para trás.
O organismo produz e utiliza lactato. Ele transporta energia entre tecidos, pode servir como combustível e participa da sinalização das adaptações ao exercício.
A concentração medida no sangue é um saldo. Mostra quanto apareceu em relação ao que foi transportado, utilizado e removido naquele momento.
Por isso, 12% menos lactato não significa 12% mais performance. Também não prova economia equivalente de glicogênio ou recuperação proporcional.
O próprio estudo de 2023 encontrou uma tendência complexa no glicogênio muscular e tratou o mecanismo da queda do lactato como uma questão ainda aberta.
Uma curva deslocada pode ser útil. Primeiro, ela precisa chegar ao cronômetro.
Os pesquisadores também estão ligados ao produto
A história científica e a história comercial se encontram.
No pré-print de 2025, Michaela Sundqvist e Filip Larsen declaram possuir patente relacionada ao uso de isotiocianatos para melhorar adaptações ao exercício. Também informam que são cofundadores e acionistas de uma empresa criada para vender produtos de performance.
Uma patente publicada nos Estados Unidos identifica Larsen como inventor. A cessionária atual é a Nomio Nutrition AB.
Isso não torna o resultado falso. Pesquisadores frequentemente transformam descobertas em produtos. A transparência muda a forma de interpretar o conjunto: resultados promissores produzidos pelos inventores da tecnologia precisam ser repetidos por grupos independentes.
Essa replicação ainda não foi publicada.
O estudo que pode levar a tese até a performance
Um novo ensaio foi registrado em 2026.
O plano é recrutar 30 adultos treinados em endurance. Eles receberão brotos ricos em isotiocianatos três ou dezesseis horas antes de aproximadamente duas horas de ciclismo, seguidas por contrarrelógios de 10 km.
Os pesquisadores pretendem medir lactato, glicose, glicogênio, recuperação e, desta vez, performance.
Na última atualização consultada, o estudo ainda não estava recrutando e não possuía resultados. A conclusão primária estava estimada para dezembro de 2027.
Esse protocolo pergunta exatamente o que o produto já parece responder: uma mudança metabólica se transforma em desempenho depois de um esforço prolongado?
Por enquanto, não sabemos.
O que já sabemos e o que ainda falta
| O que já sabemos | O que ainda não sabemos |
|---|---|
| Brotos ricos em glucosinolatos alteraram lactato e marcadores de estresse em amostras pequenas | Se o shot comercial melhora tempo de prova |
| Nove pessoas aumentaram o tempo até a exaustão depois de sete dias intensos | Se o efeito se repete numa amostra maior e independente |
| Um pré-print encontrou menor lactato três horas após a ingestão | Se lactato menor preserva glicogênio ou reduz fadiga |
| A dose comercial nasceu dessa linha de pesquisa | Se existe benefício em corrida, trail ou ultramaratona |
Onde o shot de brócolis está em 2026
A Nomio não surgiu de uma ideia vazia. Existe mecanismo, experimento controlado, resposta fisiológica e uma agenda de pesquisa real.
Também não existe base suficiente para tratar o shot como recurso comprovado de performance. A evidência humana esportiva ainda cabe em amostras de nove e 15 pessoas. Um dos estudos não passou por revisão por pares. Nenhum testou trail ou ultramaratona. A replicação independente não chegou.
O lugar honesto do produto está entre dois extremos. É interessante demais para ser descartado como moda e cedo demais para ser tratado como certeza.
O shot já chegou ao pelotão. A ciência ainda está tentando alcançá-lo.
Fontes e leitura adicional
- Glucosinolate-rich broccoli sprouts protect against oxidative stress and improve adaptations to intense exercise training, 2023.
- Texto integral do estudo de 2023.
- A glucosinolate-rich beverage lowers blood lactate concentrations during submaximal exercise, pré-print, 2025.
- Ensaio registrado sobre brotos, performance e recuperação, 2026.
- Sulforaphane Bioavailability from Glucoraphanin-Rich Broccoli, 2015.
- Patente Methods for improving physical exercise performance, cessionária atual Nomio Nutrition AB.
- Ciência, composição e modo de uso apresentados pela Nomio, acesso em 2026.
Nota de transparência: este conteúdo não possui relação comercial com a Nomio. Alegações da fabricante foram identificadas como tais e comparadas com o estudo publicado, o pré-print, o registro de ensaio e a patente.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individual de nutricionista esportivo ou profissional de saúde. Atletas sujeitos a controle antidoping continuam responsáveis pelos produtos e lotes que utilizam. A presença de um produto em programa de análise de lote reduz, mas não elimina, risco de contaminação.
